
Arnaldo Jabor, O Globo, 09/04/2008
Eu, Glauber Rocha, sou inexplicável
O cinema mudou e os espectadores também
“Eu morri com 42 anos e odeio ser chamado de clássico, mito, retrato de antologia; vão todos para a ‘p.q.p.’! Ficam me definindo como um estranho no ninho, um fóssil da velha geração dos anos 60. E abrem polêmicas para saber se eu era um gênio ou uma besta. Nesta adulação ou nesses esculachos post-mor tem, querem provar que não haveria lugar para mim neste mundo pós-moderno. Talvez seja verdade, pois eu sou inexplicável à luz de hoje.
Eu vivi num claro instante, uns segundos antes do Big Bang do Brasil atual. Previ quase tudo que ia acontecer. É difícil explicar, mas eu trouxe a trama da complexidade contra os dualismos fáceis. Eu trouxe a dúvida para as certezas, o choque dos contrários, a ruptura de linguagem para a política e para a poesia.
Eu fui o primeiro a apontar as razões da derrota em 64, por conta de nossa ingenuidade e onipotência ideológicas. Quando falei, um dia, que o Golbery era o gênio da raça, eu estava tentando o saudável sacrilégio de imaginar uma adesão de militares para a abertura que surgia com o Geisel, para além do beco sem saída masoquista das esquerdas. Só faltaram me empalar como ‘reacionário’, ‘adesista’, porque eu buscava uma saída para a ditadura e o subdesenvolvimento.
Quando fiz ‘Deus e Diabo”, eu trouxe a melhor tradição do grande teatro e do cinema para o país: Brecht e Eisenstein. Eu gravei nas telas ‘Os sertões’ de Euclides da Cunha, com seus cangaceiros e fanáticos, eu filmei por Guimarães Rosa e Graciliano, eu acabei com o realismo de tipos simplificados. Em meus filmes, como ‘Deus e Diabo’, as personagens do bem e do mal se interpenetravam. Corisco queria acabar com a miséria do mundo e matava para ‘não deixar pobre morrer de fome’; Antonio das Mortes era shakespeariano, em crise com o destino que o levava a massacrar beatos e cangaceiros, assim como o Santo Sebastião, meu Antonio Conselheiro, sacrificava crianças, sonhando com um sertão que iria virar mar. O bem e o mal misturados na miséria das caatingas e da mentalidade política.
Com essas idéias, não era possível usar a linguagem careta de ‘princípio, meio e fim’ de Hollywood. Não se explica o novo com uma língua velha. Foi então que eu furei várias vezes a estrutura do cinema internacional. Uma delas foi na arena seca que eu instalei na caatinga, na segunda parte de ‘Deus e Diabo’: uma laje de pedra onde se moviam o amor, a morte, o véu de noiva, as mulheres se amando, o violeiro cego, cactus e sol, o choro de Villa-Lobos, beijos e punhaladas, sexo e castração, tudo ao mesmo tempo, orquestrado numa espécie de palco transcendental, contra a ‘decupagem’ do filme americano.
Depois, em ‘Terra em transe’, eu mostrei que as desgraças brasileiras estão além da mera luta de classes. Provei que nossa tradição colonial e oligárquica é que corrói o país, com seus políticos espalhando a gosma da cobiça e da estupidez. Ali, no clímax da zona geral, o povo dança entre ladrões, demagogos, polícia, Igreja, bacharéis, prostitutas, todos num emaranhado barroco, que culmina com o Jardel Filho tapando a boca de um pelego e falando para a tela: “Vocês já imaginaram (esse sindicalista) Jerônimo no poder?”. Foi a maior porrada na sociologia simplista dos derrotados de 64, o que me valeu o ódio daqueles que vêem os pobres como uma divindade sagrada e não como destituídos e manipulados. Hoje, o Brasil está parecidíssimo com ‘Terra em transe’. Este populismo sindicalista eu previ em 67 — vai jogar fora a chance de melhorar o país, para atender a fome de poder dos pelegos ignorantes que querem se eternizar no Estado.
Hoje, morto, posso me elogiar sem vitupério — saibam que eu mexi na linguagem do cinema mundial. Quando ganhei Cannes como melhor diretor, em 69, com o ‘Dragão da maldade’, o Visconti deu uma festa em minha homenagem, dentro da grã-finagem intelectual européia. Eu fiquei aterrorizado naquela noite, pois percebi que eu não queria aquele sucesso. Eu ia ser o quê? Um bacaninha tropical, comendo starlets, fumando charuto, casa com piscina? Eu queria muito mais — queria um terremoto, cheio de som e fúria, com tragédias e apoteoses, eu queria uma revolução que esmagasse a mediocridade.
Mas a política e a poesia foram demais para um homem só. Fui para a África, a Espanha, em busca de um filme ‘essencial’, que mudasse a vida, como dizia Rimbaud. Fui para os USA, fiquei num bordel na beira da ferrovia e sujei meu prestígio com os executivos de Hollywood que me davam roteiros caretas. Fui para a URSS e odiei os burocratas cheios de vodca, fedendo à banha de urso. Fui para Cuba e desprezei os fidelistas que me achavam muy liberal, porque eu fumava maconha e comia as compañeras.
Foi então que eu comecei a enlouquecer. Para mim, não havia futuro. Eu não agüentaria a sopa fria de hoje, o mercado, a malandragem molenga da sacanagem e da grana. E fui piorando, sozinho, sem dinheiro, filmando mal e sem rumo minha loucura.
É necessário dizer isso: morri louco, desesperado, implorando dinheiro à Embrafilme, com a septicemia de uma pericardite mal curada em Portugal, tentando juntar as pontas do sonho sebastianista com o Nordeste miserável e até misticismo. Faltou-me terra, faltoume o cotidiano, faltou-me estômago.
No final, em Portugal, na úmida Sintra, eu já não comia mais, vivia escrevendo nu, pela noite adentro, cheio de recortes de jornais brasileiros, que eu tentava organizar como um quebra-cabeça que desse sentido a nosso enigma. Passeava até o cais de onde partiram as caravelas, em Lisboa, olhando em direção ao Brasil. Descobri, aterrorizado, que eu era uma personagem de mim mesmo. Eu não existia mais, eu era uma metáfora incompreensível que morava dentro da arte.
E, então, eu morri, cheio de tubos, naquela cama de hospital no Rio, olhando meu amigos em contre plongé: o Barretão, o Cacá, o Mascarenhas, o Gustavo Dahl, até a besta do Jabor, todos tentando me segurar como um barco que vai partir; mas eu rompi as amarras e fui”.
Arnaldo Jabor
